Blog · Culinária

Roça quilombola, quintais e soberania alimentar: o que se planta e por que importa

Estrada de terra entre a mata e o campo, com as montanhas da Serra do Mar ao fundo, no caminho do Quilombo da Fazenda

Toda receita quilombola começa antes da cozinha: na roça, no quintal, no rio, no mar e na mata. Plantar e decidir o que comer foi, nos quilombos, uma questão de sobrevivência e de liberdade. Hoje esse tema tem nome: segurança e soberania alimentar.

Segurança alimentar e soberania alimentar: qual a diferença

  • Segurança alimentar e nutricional: é o direito de todos a ter acesso regular e permanente a comida de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer outras necessidades, respeitando a diversidade cultural. É a definição da Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional, de 2006.
  • Soberania alimentar: vai além do acesso. É o direito de um povo ou comunidade decidir o que planta, como produz e o que come, com as próprias sementes e saberes. O conceito foi lançado por movimentos camponeses nos anos 1990.

Uma comunidade pode ter comida no prato e mesmo assim perder a soberania, quando passa a depender só de produtos de fora e esquece as próprias sementes e receitas.

A roça quilombola

Nos quilombos históricos, a roça era a base da liberdade. Palmares plantava milho, feijão, mandioca e banana e trocava a produção com os vizinhos. Depois da abolição, muitas comunidades continuaram vivendo do que plantavam, combinando roça, pesca, caça, coleta e pequenas vendas.

Um exemplo conhecido é o das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, no sul de São Paulo. O seu sistema agrícola tradicional, com roças de coivara, rodízio de áreas, troca de sementes e trabalho em mutirão, foi registrado pelo Iphan como patrimônio cultural imaterial do Brasil.

Feijão, mandioca e milho: a base de todo dia

Em muitas comunidades rurais e quilombolas, a mesa de todo dia se apoia em poucos alimentos plantados em casa:

  • Feijão, muitas vezes de variedades crioulas, guardadas e trocadas entre famílias há gerações.
  • Mandioca, que vira farinha e acompanha tudo.
  • Milho, para o angu, o fubá e a criação de animais.
  • Hortaliças e folhas como couve e taioba.
  • Frutas do quintal e da mata.

As sementes crioulas são variedades selecionadas pelas próprias famílias, adaptadas ao solo e ao clima do lugar. Guardar e trocar sementes é uma das formas mais concretas de soberania alimentar.

Quintais produtivos e agrofloresta

O quintal é a extensão da cozinha: tem fruta, tempero, planta de remédio, galinha e horta. Em muitas comunidades, é o espaço das mulheres e o lugar onde as crianças aprendem o nome de cada planta.

A agrofloresta leva essa lógica mais longe: planta alimentos junto com árvores, imitando a própria mata. No litoral da Mata Atlântica, ela permite produzir banana, juçara, pupunha e frutas mantendo a floresta em pé. No Quilombo da Fazenda, a visita à agrofloresta aparece entre os roteiros ecológicos da comunidade.

Na nossa cozinha, isso aparece no prato: juçara, taioba, banana verde, palmito pupunha e peixe fresco. Conheça de onde vem cada fruta em frutas da Mata Atlântica na cozinha quilombola.

Políticas públicas que ajudam

  • Alimentação escolar (PNAE): pela Lei 11.947/2009, pelo menos 30% do dinheiro federal da merenda deve comprar alimentos da agricultura familiar, com prioridade para assentamentos, comunidades indígenas e quilombolas.
  • Titulação do território: sem terra garantida, não há roça. Por isso a luta pela terra é também uma luta por comida.

Como apoiar como consumidor

  • Compre de produtores familiares, feiras e comunidades tradicionais.
  • Experimente ingredientes regionais e da estação.
  • Cozinhe receitas tradicionais e conte de onde elas vêm. Comece pelas receitas quilombolas fáceis.
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Perguntas frequentes

Qual a diferença entre segurança alimentar e soberania alimentar?

Segurança alimentar é o acesso regular a comida de qualidade e em quantidade suficiente. Soberania alimentar é o direito de uma comunidade decidir o que planta, como produz e o que come.

O que é roça de coivara?

É um sistema tradicional em que uma área é aberta, cultivada por pouco tempo e depois deixada em descanso para a mata se recuperar, em rodízio. É praticado por comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, cujo sistema agrícola é patrimônio cultural do Brasil.

O que são sementes crioulas?

São variedades de plantas selecionadas e guardadas pelas próprias famílias de agricultores ao longo de gerações, adaptadas ao lugar onde são plantadas.

O que é quintal produtivo?

É o quintal usado para produzir alimentos: frutas, hortaliças, temperos, plantas medicinais e pequenas criações, perto da casa e da cozinha.

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